Vermifugação de Cavalos: Quando e Como Fazer Corretamente

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Vermifugar o cavalo parece simples: comprar a pasta, aplicar na boca do animal e pronto. Mas esse “protocolo por calendário” que muita gente ainda usa está ultrapassado.

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Hoje, veterinários equinos recomendam um caminho diferente: tratar com base em exame de fezes, não em data fixa no calendário. Entenda por que isso mudou e como aplicar na prática.

Por que vermifugar o cavalo

Cavalos convivem naturalmente com vermes intestinais. Isso não é necessariamente um problema — em pequena quantidade, os parasitas fazem parte do equilíbrio do sistema digestivo do animal.

O problema aparece quando a carga parasitária cresce demais. Os principais parasitas de equinos são os estrongilídeos (como *Strongylus vulgaris* e os pequenos estrôngilos, ou ciatostomíneos) e os ascarídeos (*Parascaris equorum*), além de outros como *Strongyloides westeri* e *Oxyuris equi*.

Em infestações altas, os sinais incluem:

  • Emagrecimento progressivo
  • Pelos secos, opacos e arrepiados
  • Anemia e fraqueza
  • Falta de apetite
  • Barriga estufada (comum em potros)
  • Diarreia ou fezes amolecidas
  • Cólica

O caso mais grave é o do *Strongylus vulgaris*, que pode migrar pelos vasos sanguíneos do intestino e causar lesões na artéria mesentérica — uma das causas de cólica com risco de morte em equinos.

O erro do “vermifugar por calendário”

Durante décadas, o manejo padrão era vermifugar todos os cavalos do haras na mesma data, a cada 60 ou 90 dias, trocando o princípio ativo a cada aplicação — a famosa “rotação de vermífugos”.

A lógica parecia boa: se todo mundo troca de remédio, nenhum parasita cria resistência a um só produto. Só que a prática mostrou o contrário.

Segundo as diretrizes de controle de parasitas internos da American Association of Equine Practitioners (AAEP), atualizadas em 2024, a recomendação atual é justamente parar de rotacionar classes de anti-helmínticos às cegas. Em vez disso, o tratamento deve ser direcionado ao nível de eliminação de ovos de cada cavalo.

O motivo é a resistência anti-helmíntica: quando se trata toda a manada com a mesma frequência, os vermífugos perdem eficácia com o tempo, porque só sobrevivem os parasitas mais resistentes, que depois se reproduzem sem concorrência.

O erro clássico: vermifugar o haras inteiro no mesmo dia

Esse é um dos equívocos mais comuns apontados por especialistas em manejo equino. Tratar toda a tropa ao mesmo tempo, com o mesmo produto, elimina também os parasitas mais sensíveis ao medicamento — os que ainda não desenvolveram resistência.

Sem esses parasitas “sensíveis” sobrando no ambiente (o que os pesquisadores chamam de refugia), a população que resta nas próximas gerações é cada vez mais resistente ao remédio usado.

Manter parte da população de parasitas em refugia — ou seja, não eliminá-la completamente — é hoje considerado essencial para conter o avanço da resistência parasitária em cavalos.

A mudança de protocolo: do calendário para o exame OPG

O exame de OPG (ovos por grama de fezes) é hoje o método de referência para decidir quem precisa de vermífugo e quem não precisa.

Funciona assim: coleta-se uma amostra de fezes de cada cavalo do plantel e conta-se, em laboratório, quantos ovos de parasitas existem por grama de fezes.

Com o resultado, os cavalos são classificados em três grupos:

  • Baixa eliminação: poucos ovos por grama, indicando boa imunidade natural contra os parasitas
  • Média eliminação: carga intermediária
  • Alta eliminação: carga alta, indicando maior risco e maior potencial de contaminar a pastagem

A AAEP recomenda tratar prioritariamente os animais classificados como altos eliminadores (geralmente acima de 500 OPG em adultos), enquanto os baixos eliminadores (entre 0 e 200 OPG) podem ficar sem tratamento imediato. Em potros, o limite de referência usado no Brasil costuma ser mais baixo, em torno de 200 OPG, já que os mais jovens têm menos imunidade desenvolvida.

Essa estratificação existe porque, segundo dados citados por especialistas em manejo equino, entre 50% e 75% dos cavalos adultos de um plantel são naturalmente baixos eliminadores — e vermifugá-los sem necessidade só acelera a resistência, sem trazer benefício real ao animal.

Na prática, poucos cavalos costumam ser responsáveis pela maior parte da contaminação da pastagem. Por isso, focar o tratamento nesse grupo menor é mais eficiente do que tratar o plantel inteiro.

Frequência recomendada

Não existe mais um número mágico de “vermifugar a cada X dias” válido para todo cavalo. A frequência ideal depende do resultado do OPG, da idade do animal, do clima da região e do tipo de manejo (pasto, baias, lotação de animais por área).

Como referência geral:

  • Cavalos adultos baixos eliminadores: costumam precisar de apenas 1 a 2 tratamentos por ano, geralmente em épocas estratégicas (como fim da seca e início das chuvas, quando a carga de larvas na pastagem tende a aumentar)
  • Cavalos altos eliminadores: podem precisar de tratamento a cada 3 a 4 meses, sempre reavaliados por novo exame de OPG
  • Potros e cavalos jovens: têm protocolo próprio, com tratamentos mais frequentes nos primeiros anos de vida, já que a imunidade contra parasitas ainda está em formação

Um teste importante — e pouco feito no Brasil — é o teste de redução da contagem de ovos (FECRT). Ele repete o exame de OPG cerca de 10 a 14 dias após a vermifugação para confirmar se o produto usado realmente funcionou naquele cavalo ou plantel. A AAEP recomenda repetir esse teste anualmente.

Tipos de vermífugos

Os princípios ativos mais usados em equinos no Brasil se dividem em algumas classes principais:

  • Avermectinas/milbemicinas (ivermectina, moxidectina): eficazes contra estrongilídeos, incluindo larvas migrantes, e também contra alguns ectoparasitas
  • Benzimidazóis (fembendazol, oxibendazol): historicamente muito usados, mas já apresentam resistência relatada em várias regiões
  • Pirimidinas (pamoato de pirantel): boa opção contra ascarídeos e alguns estrongilídeos

A escolha do produto certo — e a confirmação de que ele ainda é eficaz naquele plantel — depende de orientação veterinária. Usar sempre a dose correta para o peso do animal (idealmente pesado ou fitado, não estimado “a olho”) também é essencial: doses baixas favorecem resistência, e doses altas podem intoxicar o cavalo.

Erros comuns na vermifugação

Além de vermifugar o plantel inteiro na mesma data sem critério, outros erros frequentes incluem:

  1. Calcular a dose por estimativa visual do peso, sem usar fita de pesagem ou balança
  2. Não limpar a pastagem — remover fezes regularmente reduz a reinfestação, independente da vermifugação
  3. Ignorar a superlotação de animais por área de pasto, que aumenta a exposição a larvas
  4. Não vermifugar cavalos novos antes de introduzi-los ao plantel, o que pode trazer parasitas resistentes para o grupo
  5. Trocar de produto a cada aplicação por hábito, sem saber se o produto anterior realmente funcionou

O que fazer na prática

Se você ainda vermifuga por calendário fixo, o primeiro passo é conversar com um médico-veterinário sobre exame de OPG para o seu plantel. É um exame simples, de baixo custo, e que evita gasto desnecessário com produtos que talvez o cavalo nem precisasse.

A partir do resultado, o veterinário monta um protocolo individualizado — que costuma ser mais barato a longo prazo do que vermifugar todos os animais o tempo todo, além de preservar a eficácia dos medicamentos disponíveis para quando forem realmente necessários.

Fontes

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